O bitcoin ganhou espaço como investimento e passou a fazer parte da carteira de grandes gestoras, mas isso não convenceu boa parte dos economistas de que ele possa cumprir o papel de moeda. Na visão predominante entre acadêmicos citados no debate, os fundamentos continuam frágeis: falta estabilidade de valor, o uso em pagamentos ainda é limitado e a demanda segue muito ligada à especulação.

O que aconteceu: o economista Eugene Fama, vencedor do Nobel e um dos principais nomes da teoria moderna de finanças, voltou a criticar as criptomoedas. Segundo ele, ativos como bitcoin violam as regras básicas de um meio de troca porque não têm valor estável. Na prática, isso dificulta seu uso como moeda no dia a dia.

Pela teoria econômica, uma moeda precisa cumprir três funções: servir como meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor. Hoje, poucos preços são denominados em criptoativos, o uso cotidiano segue restrito e a volatilidade continua alta. Um estudo da McKinsey com a Artemis Analytics mostrou que só 0,02% do volume global de pagamentos reais de usuários finais ocorre em criptomoedas — e quase todo esse volume passa por stablecoins, não por criptoativos sem lastro.

Por que importa: a volatilidade do bitcoin caiu ao longo do tempo, mas ainda permanece acima da observada em ações e ouro. Além disso, o ativo passou a se mover de forma mais próxima dos índices acionários e de outros mercados tradicionais, especialmente em momentos de maior aversão ao risco. Isso enfraqueceu, segundo os críticos, a tese de que ele funcionaria como proteção contra a inflação.

O debate: para Paul Krugman, também vencedor do Nobel, o bitcoin ainda tem pouca utilidade econômica em escala relevante e depende muito de narrativa, entusiasmo especulativo e apoio político. Já Eric Budish, da Universidade de Chicago, aponta outro problema: manter a segurança de redes abertas como bitcoin e ethereum exige incentivos permanentes a mineradores ou validadores, o que pode tornar esse modelo de confiança mais caro do que sistemas apoiados em instituições, contratos e Estado de direito.