Uma falha presente por cinco anos no firmware (software interno) de dispositivos COLDCARD permitiu que um atacante drenasse 1.596 BTC. Uma quarta onda ainda estava em apuração e poderia elevar o total para 2.055 BTC, cerca de US$ 130 milhões (aprox. R$ 715 milhões).
O que aconteceu: Um commit de 1º de março de 2021 redirecionou a criação da seed, a frase de recuperação que controla os fundos, do gerador aleatório do chip para um gerador de software alimentado por dados previsíveis do aparelho. Um erro de configuração fez a compilação ser aprovada mesmo com a proteção desativada.
Em números: Seeds criadas nos modelos Mk2 e Mk3 tinham cerca de 40 bits de aleatoriedade real. Nos modelos Mk4, Mk5 e Q, eram aproximadamente 72 bits, abaixo dos 128 bits esperados em uma frase de 12 palavras bem gerada. A atualização do firmware corrige apenas novas seeds; carteiras criadas no período precisam ser substituídas, com a transferência dos fundos para uma carteira nova.
A primeira onda atingiu 1.196 endereços. O atacante pagou taxas elevadas para confirmar as transações rapidamente e impedir tentativas de recuperação por RBF (mecanismo que permite substituir uma transação ainda não confirmada). A perda mediana foi de 0,41 BTC, e a maior perda individual chegou a 29,9 BTC. Nenhum endereço multisig (carteira que exige várias chaves) ou Taproot foi incluído.
A publicação de 2021, na qual a própria COLDCARD descrevia o chamado “ataque de aposentadoria” como a inclusão deliberada de um erro na geração de entropia para recuperar fundos depois, alimentou suspeitas. Até agora, porém, não há evidência de intenção. A forma do erro e o fato de a falha ter permanecido em código publicado por cinco anos também sustentam a hipótese de acidente de compilação.
Para brasileiros, o caso reforça que autocustódia exige mais do que guardar a frase de recuperação: redundância entre fabricantes, passphrase e procedimentos de migração também fazem parte da segurança.




